digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

sexta-feira, agosto 04, 2017

Estranhava a ausência

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Estranhava a ausência, porque vem no fim de Maio e larga-me tardiamente, quando a aragem arrasta a folhagem e as dores. Regressou porque é fiel e crua e sou-lhe alimento.

sábado, julho 29, 2017

Os círculos desenham-se à mão

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Pode um homem de quarenta e sete anos enternecer-se? Não se diga que há uma criança em nós, não é verdade – só quando chorar é inevitável e há gente a ver.
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Não me sinto o Rei que perde o reino. Sinto-me o condenado quando pode, para sempre, ter sol. Foram oitenta e dois anos e três meses e finalmente se fecha a porta, não da casa, mas da família ao sítio.
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As casas têm felicidade e sombras. Aquela pesa em tantos e em mim. Para mostrar diria a minha vida toda, que levaria igual tempo a falar.
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Só antevendo uma meta se compreende circular, linha que não se faz num dia. Finalmente tomei o meu último duche, depois tirei as loiças e recolhi as roupas – últimas peças de intimidade.
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Não choro mortos e alegro-me com os reencontros, venham desta vida ou regressem da morte – no reaver daquela forma de bater do coração, difícil de explicar, diferente e particular para cada amigo.
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Invisível, mas não insensível, tantos anos, quase tantos quantos os que vivi naquela casa – só mais um. Não me lembro se andava perdido quando deixei a infância, aos vinte e quatro anos.
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Vinte e três anos é uma vida. Reencarnou no dia em que trouxe as loiças e as roupas e tem ainda os braços abertos.
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Pode um homem de quarenta e sete anos enternecer-se? Pode, quando reencontra o seu urso. Não se diga que não sou uma criança.

quinta-feira, junho 15, 2017

Desver

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Quase tudo se pode, mas é impossível desver. Quando a pele tem forma tépida e a cor macia, sei tudo. Como gostaria de te saber.

Terra

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Se o fogo queima. Digo ansiando o ruído do fundo da Terra, secretamente conto-te o que falaria ao teu ouvido e expludo como se estivesse em ti. Ansioso por sermos um tempo sem nada.

Alma em mau estado

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Vendo alma em mau estado.
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O Diabo não a quis e não é coisa que se apresente a Deus.
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Parece que lhe falta bondade e perfídia.
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É uma coisa escarlate-parda, uma impossibilidade – dizem os que sabem e os que não sabem.
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Não sei a idade, é mais velha do que eu.
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Com tão mau uso, prendeu-se como óleo ressequido ao coração-cabeça-estômago-fígado, à garganta e ao sangue.
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Porém, está descolada do corpo. É desistência pura.
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Não sei mais.
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Não percebo de negócios e se ninguém ma comprar, dou-a a quem falar primeiro.
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Diz-me a consciência que enganarei alguém.
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Tenho sempre a mala feita.

quarta-feira, junho 14, 2017

Som

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A música é uma coisa estranha, não se vê. Constrói e derruba, como transfusão de sangue certo e chegada de sangue falso – como os comprimidos.
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Nota: Se alguém souber a autoria desta imagem, por favor, informe-me.

terça-feira, junho 13, 2017

Difícil de explicar

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O sentido que faz um ovo cozido num avião voando vazio.
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Os olhos negros sem luz tão ferozes e castigadores aos olhos dos cegos.
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O peso indefinível no coração-cabeça-estômago-fígado, lento e quase final.
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Ser o inimigo pensando numa quimera predadora, hesitando entre a fuga e a desistência.
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É difícil explicar a quem vê portas e janelas que não se vê nem portas nem janelas.
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Nota: O artista polaco Dawid Planeta desenvolve a sua obra em torno da sua depressão.

segunda-feira, junho 12, 2017

Noite de Santo António

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A mais longa noite de Lisboa, onde cardume de sardinha-gente em lata vai na corrente de cerveja sempre fria, como o oceano em que engordam os peixes. No carvão e no cheiro há também febras para quem não come as manujas. Bebedeiras sem ressaca é milagre que Santo António não sabe.

Chegar

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Continua a nadar, não chegarás à América.

Luz

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Quem viu a luz sabe que não há sombra nem medo.
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Nota: Iluminura do Livro de Horas de Louis de Larval, datado de 1480.

Nada que um Vinho do Porto não resolva

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– Quando acaba o mundo?
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– Brinca?
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– Não o atormenta?
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– Não, nem um pouco.
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– Nem um pouco?
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– Não.
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– Penso nisso. Faz sentido acabar o mundo?
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– Não entendo. Onde quer chegar?
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– Se faz sentido o mundo acabar. Inquieta-me…
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– Morreremos um dia.
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– Não é isso. Isso eu sei. E garanto-lhe que não se morre.
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– Já falámos disso. Sabe o que penso.
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– Sei, sim.
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– Se o diz, se tem essa certeza, por que se pergunta acerca do fim do mundo?
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– Deus criou o mundo. Poderá acabá-lo. O que haverá então?
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– Criou também o universo, depreendo e sei que o pensa. Acabar com o mundo, com o universo… o que importa?
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– Não sei. Talvez não importe. Agora importa-me. O que será de nós se o mundo acabar?
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– …
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– Por que viemos?... Por que existimos?
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– Por que não o pergunta a Deus?
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– …
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– Não crê? Não o teme, sei. Por que há-de pensar no fim do mundo?
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– Se não houver fim do mundo, que sentido faz tudo isto? A casa, nós, as estrelas, o espaço entre os corpos celestes.
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– …
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– Bem… talvez importe tanto quando o começo. Sabe como começou?
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– Usando a ciência…
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– A ciência obedece a Deus. Usemos a ciência. Sabe como começou? Quando começou?
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– Há treze mil milhões de anos ocorreu o que se convencionou designar por biguebangue…
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– Tem a certeza?
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– Há certezas? Quer que lhe responda se foi numa terça-feira por volta do meio-dia?
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– Não. Gostava de saber por que começou? Sabendo-o, talvez percebesse o fim do mundo. Não sei.
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– Nem eu.
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– Aceita um tawny?
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– Um de vinte anos irá bem.

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Anoitece e é Verão

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Sentado vejo o que se vê, não critico nem elogio, conformado. À janela aguardo e testemunho a luz baixando-se e o candeeiro público acender-se-á. Para quê? A Terra roda e não fosse a chatice não haveria relógios e, sem eles, as horas seriam horas, ainda assim voariam.

Segredo

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Se escrevi um poema sem sentido poético, nem digo poesia, contem-me. Preocupa-me ter segredos, detesto surpresas e resigno-me a não resignar às desilusões.

Eu que nem digo palavrões

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Um corredor vazio do qual se espera um sopro antes-depois do som. Toda a casa de vazio, para a qual se espera vazio. Pode ser a escola num fim-de-semana sem datas. Ou não espero nada, desejo ou nem sei.
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Posso estar porque me esqueci. Na verdade, lembrei-me. A prisão é a liberdade, lá fora há a loucura e dias por passar.
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Passos sem tempo nem vírgulas. Falta-me assunto e sem dicionário vou em círculos perguntando.
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– Badamerda ou bardamerda?
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Como se tivesse sido insultado, respondo redondo e cheio.
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– A puta que te pariu! Estou a cagar-me, caralho!
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Não estou. Nunca estou para não estar. Qualquer palavrão finda em arrependimento.
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Quase arranco os cabelos. Quase parto o crânio na parede. Quase querendo a loucura.
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Arrependo-me muito, porque tenho cabeça-coração-pulmões-estômago-fígado e sangue.
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– Porra! Porra! Porra!
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Tenho de repetir até cansar-me, deixando a loucura – invisível lá fora como aqui – soar e ouvindo ouvindo-me, algo como um orgasmo e a dor de engolir um copo de água após sede demorada.
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Se enlouquecesse, se pudesse ser a verdade, se pudesse não ter memória nem consciência, se me esquecesse de mim. Se fosse louco.
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Se pudesse não ser verdade. Se esta fosse a liberdade, como a que imaginei.
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Se houvesse cheiro e visse a preto e branco e se assim fosse visse a cores.
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Se pudesse entrar na parede e sê-la. Dela, olhos e ouvidos. Se houvesse um relógio para ver as horas.
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Sei que há um relógio. Tem de haver. Não se vive sem horas. Estas são infinitas e hão-de acabar.
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Não se pode viver assim. Não posso viver lá fora e, enquanto puder, será só meu o vazio.
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Grito palavrões.
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Eu que nem digo palavrões.
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Nota: Não consegui identificar a autoria desta fotografia. Se alguém souber, por favor, informe-me.

Espelho

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Escrever-desenhar-nadar, desistido-estúpido-desistente, só o espelho me vê.
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Nota: Não consegui identificar o autor da fotografia. Se alguém souber, por favor, indique-me, de modo a poder atribuir o crédito autoral.

Natação

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É triste escrever escrever escrever escrever escrever como as oitenta e duas que me deixavam nos vinte e cinco metros porque continuaria e é assim nas duas coisas mais do que vício a pulsação doente de quem não sabe mais do que nadar para evitar escrever e desistir insistindo.

Mentir – Saltar

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A mentira é uma aflição. Fujo dessa fuga antes que fujam para mim e desamparado me deixem. É o aperto de coração na garganta, desfalecimento em vergonha nas noites do sono aflito de insónia, uma cicatriz sem fecho na consciência, mais dura do que a verdade.
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Por vezes inevitável como saltar da arriba para a espuma no azul, se me deixar aproximar.

Diz-se um palavrão

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Mandar tudo pelos ar é o alívio antecedendo o fastio de arrumar o insolucionável.

Incompletação

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Na sabedoria dos enganos disse-lhe que hoje é véspera de amanhã.
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Na simplicidade dos tolos, riu-se.
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Desconversando, explicou-lhe que o tempo é relativo.
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Na simplicidade dos tolos, não percebeu a piada.
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Viver não é fácil, acrescento eu em angústia e melancolia.
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Os dias tendem à igualdade, incompletei ansioso.

Eu-Lisboa

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Não vou para ficar e antes de ir sinto regresso, sou aqui, como se fosse desta cidade como a luz ou, mais modestamente, uma árvore que só aqui tem chão.
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Sou fim, sem lembrança nem caminho.
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Ordem das fotografias: Artur Pastor, Gérard Castello Lopes e Joshua Benoliel.

Riscos

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O triângulo equilátero tem menos um risco do que um quadrúpede.
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Li que tudo é matemática, não encontro números num espelho partido com o meu reflexo.
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Nem mesmo a geometria define estilhaços.
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Porque nem simples nem sábio, gosto do quadrado e do círculo e quase entendo um triângulo equilátero.
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Quieto como numa fotografia.

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A fé é estranha para um crente racional como um ateu. Pergunta a Deus e ouvirás a tua voz. Pergunta à ciência e talvez escutes uma verdade de Deus.

O livro que não se leva para as férias

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Sou irreflexo, opaco e translúcido. Sou objecto igual e horas de não esperar. Sou a dor nas costas na curva da rua errada. Sou a bebedeira inglória que sobra da discoteca. Sou a moeda de cêntimo esperando conveniência e inútil na máquina de cigarros. Sou a chuva na madrugada deserta à porta fechada da rodogare. Sou incandescência no frio, teimosa como o magma. Sou a caneca para canhotos.

domingo, junho 11, 2017

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O sacerdote explica o que o cientista desmente e Deus ri-se muito.
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Nota: Bem sei que a escolha do complemento imagem é óbvia, mas inconsegui melhor.

Tilacino

video
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Os meus amores passados brevemente ressuscitam, meio assombrados e metade carnais, sem renascerem. São-no quando regresso aos tempos e, nem que fosse pelo relógio, desenguiçam-se ao ver-me nesta outra vida. Não sou uma só pessoa e essas já fui.
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Nota: Recentemente li uma notícia de que o lobo-da-tasmânia ou tigre-da-tasmânia foi furtivamente visto. Quem me dera que esteja vivo e bem escondido da espécie humana.

Definição de momento

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Como fosse sombra ou caminho ou estados de alma.

Nem ouvi o telefone

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Quando há esforço, não há trabalho que possa, pois tenho as mãos nos bolsos. Se ficarem por fora, finjo-me aleijadinho das ideias, que é preguiça maior do que a surdez. Se ainda não me viram, vou-me embora.

Perfeitos

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A ciência de Deus é exacta e criou o círculo e o quadrado e deles fez a esfera e o cubo. Que os cientistas e os sacerdotes expliquem o resto.

sábado, junho 10, 2017

Nudez

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Fazer amor sob o céu é ser duplamente nu. Se ninguém vir, pode ser o que se quiser. Se for verdade, será maior a natureza.
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Nota: Instalação «Hotel Zero Estrelas».