digo e o oposto, constantemente volúvel, às vezes verdade. juro pela minha alma, mais do que vinho amo a água e só me desenseda e lava, a cara, o corpo e a vergonha de ser quem não quero. os sonhos antigos são sonhos e antigos e os novos de esperar, é esta a vida a mim agarrada, se esperança existe.

quinta-feira, maio 25, 2017

Cubo

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O Cubo manifestando-se aqui inconseguiria ser o laço que desaperta na vez de punir. A sua matéria indestrutível seria desistência. O negrume da cidade e o negrum da casa só se unem quando os carros pretos comprimem tempo do caminho. Nem poderia o azul de fora tocar a colecção de tristezas encerradas.
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Se os carros andassem sozinhos… se não a escuridão envidraçada não fosse e viesse de dentro e da rua… se o portão abrisse para fora a fronteira… se o príncipe não.
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Na cidade há cores e a progressão geométrica é saber que não me interessa, não acontece.
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Nota: fui buscar o Cubo a Benoit Peeters e François Schuiten, onde é o motivo da acção de «A febre de Urbicanda».
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Sólidos inúteis

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O cubo é perfeito como a esfera. Qualquer deles não é remédio e possivelmente inúteis só quando conceito.

Luz

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Nem a casa o é sem o jardim nem essa imensidão revelada existe sem retribuir. Ambas, o sentimento, substância íntima sem mentira, que é preso e me detém, seja quando Edimburgo ou Lisboa, que mentem, sendo inversas e opostas, imaginárias e densas, em verdades de enganam. Enegrecidamente existo, esteja sob céu ou luz suspensa, todos os dias, esperando uma apoteose ou a foz de estuário preguiçoso.

Vénus

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Não é por isso estúpida nem insensível no ofício da cama.

quarta-feira, maio 24, 2017

Parte do jardim

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Se nada é possível, se só apenas possível, se impossível, tem o tempo inutilidade e os dias a melancolia. Olhando, esquecido de saber, o que é tanto faz, esperando o regresso duma viagem sem início. Essa é uma parte do jardim.

Quedas

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Lembro-me de cair e da cor da fotografia do movimento. Via passar velozmente os pisos, descendo sem parar pelo saguão e nunca batendo no betão. Mais tarde aprendi a amortecer nas cordas dos varais. Depois de adulto, obrigado e sem regresso, tenho esbarrado, seja caindo ou apenas perdendo, e latejando caminho ajoelhado e avançado como que na envergonhada nudez da fragilidade. Sempre numa noite, escura e negra e de vultos e de destroços. Sem poder reescrever, tombo por inconseguir outra vontade.

Inquerendo

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Uma brisa levava o ar calmo, serena, breve e levemente marinha. Continuava a pensar na cor do céu nocturno. Não preocupava, só a captura porque nada… nada. A célebre futilidade do ócio, a semente do tédio e a raiz da melancolia.
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Toda a voz vive em exílio, ninguém face ao jardim formal, um privilégio singular, outras vezes punição.
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Repentemente um mínimo burburinho, da dimensão do murmúrio escondido, remexendo o chão. Nem susto nem zanga, mas o deslumbramento pela aceitação dum camundongo atrevido – dele e minha.
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Pensar na cor do céu nocturno não causa um sobressalto, certamente o meu olhar e o resto inspirou-o.
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Meditava afimente sobre um ramal da filosofia contemplativa e o ratinho, do olhar esperto e meigo, chamou-me como a paternidade resgata um homem. Exagerando, bem sei.
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O que se faz aos olhos, aos gestos e aos sons?
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Talvez me ouvisse a cabeça e respondeu-me cirandando até se desinteressar. Subtilmente saiu sem que cão ou gato soubessem.
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Deixei-me a sorrir, apreciando o sopro veraneante, com as ideias enleadas de cor do céu nocturno e do bicho a passear-se nele.
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Inquerendo ganhei horas de vigília e aquele olhar bondoso.

Dito

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Se não conheceste a fúria nem viveste a paz nunca entenderás o cor-de-rosa.

terça-feira, maio 23, 2017

Azulmente

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Quem não viu Lisboa pode desconfiar da sua luz. O céu é do azul puro e o seu branco é a espuma do mar. Ir tem voltar e só consigo permanecer. A saudade, sentimento que usurpamos ao mundo, é verdade e sou azulmente lisboeta.

segunda-feira, maio 22, 2017

Adultar

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Nasci querendo, como as crianças sonhei e cri, como jovem disparatei e fiquei adulto sem saber. Subiu-me a barriga e minguou-me o cabelo, assim ainda será. Sem brincar não vivo e sem respeito não se pode ser. Espera-se tudo das crianças e depois exige-se mais, mesmo que me imprestem. Chore ou cale, sou indiferente. Não para o mundo, mas do mundo para mim. Estar e fazer às vezes é demasia e sonambulismo.

Noites

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Quando acordo bêbado, ainda de noite na cama de quem não quero, a cor é tempo sem sentido e embriagada a cabeça tem a lucidez que as pernas inconseguem.

domingo, maio 21, 2017

Escadaria

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Sentado num degrau da imponente escadaria de mármore pensava na tristeza do fim do mundo. Se não se lhe sobreviver, a perda não tem preço nem desgosto.
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O mármore é mais rijo do que as minhas mãos, a acidez do coração-cabeça não o corrompem e escorregando caindo há a dor latejante-analgésico.
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Se não se pode morrer, viver não vale e o passamento é enfadonho como o autocarro para a escola.
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Partir tudo será a alegria e a ressaca de perder.
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Todavia o mármore é pedra e eu sou carne.

«A» de criança

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Por desgostos, o coração ama os mais frágeis. Mesmo que seja de pedra, pano ou papel, a ternura da criança e do animal é uma comoção que esconde as feridas.

sábado, maio 20, 2017

Varsóvia

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Muitas vezes estou nu na praça e as pessoas vão e a minha voz sem se ouvir nem mesmo quando levada pelo vento. Porque os outros têm problemas e horas e os seus olhos são também iguais aos meus, vazios na cabeça enleada de ausências e equívocos.

O coelho

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O coelho é solene e estúpido, mas está a mentir.

sexta-feira, maio 19, 2017

Tempo

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O tempo é quando tal como a luz. A natureza não se engana, mas os olhos é que vêem poesia.
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Nota: Não consegui identificar o autor desta imagem. Se alguém conhecer, por favor indique-me, para que possa atribuir os créditos.

Letra A

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Os Açores conseguem tanta coisa e contudo são feitos apenas de terra, mar e céu.

quinta-feira, maio 18, 2017

O tempo mede-se com cordas

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Quando não tens uma resposta, seja por bem ou por fim, encontras na corda o fio da meada.
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Nota: Não consegui identificar a autoria desta animação. Quem souber, por favor indique-me, de modo a atribuir os créditos.

quarta-feira, maio 17, 2017

Lustro

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Bem vestido é-se grave e se calado ilumina-se de sabedoria. Abandonado no trajo, o Doutor em muitas artes é negligência e mudez. Quando a morte lhe levar a roupa, esquece-se o desarranjo e talvez se lhes oiçam a inteligência.

terça-feira, maio 16, 2017

Não estive

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O tempo e a luz não voltam, nem mesmo se reinventarem os seus átomos, se os tiverem. A ciência está para Deus como a religião está para a dúvida.

segunda-feira, maio 15, 2017

Antes que seja amanhã

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Pela noite no palácio deserto andava ao comprimento da casa como a missão do comboio. Infeliz como um pinguim engripado.
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De um lado a luz que basta, projectando-se nas paredes e dando ao príncipe uma sombra teatralmente simples, do outro as coisas dormentes de impréstimo momentâneo.
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Na vigília, incompetente para dormir, dizia-se:
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– Só tenho vergonha quando penso no que pensarão de mim. Há tanto para pensar, tantos humores e caracteres, penso e não os tenho a todos. Dói-me o que penso que pensam.
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A sombra respondia-lhe:
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– …
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Prosseguia:
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– Não sou o centro do universo nem desta casa, sou-o de mim, canso-me.
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Quando me vejo disforme, quando já não bebem do meu vinho e regressam para onde quiserem, fico rei e pateta.
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É vergonha! De saber o que sou, de pensar saber do que pensam e do que penso disso. É vergonha.
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Não, não é isso.
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Vergonha tenho do Greco. Ter um Greco não é uma vergonha comum. Poucos a têm. Até há que aprecie, há gente para tudo. Vergonha e vergonha, de Greco, são homógrafas e homófonas… deve ser isso.
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Um quadro de Greco é um quasimodo. O Quasimodo verdadeiro, sem réstia de amável. Não consegue ser negro, é um fastidioso cinzento, Greco tem postulas verdes. Grotesco que nem para atracção de feira, por pudor.
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Para que o tenho?
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Tenho-o prisioneiro, numa masmorra de tortura, para que um suicida não tenha coragem diante do castigo.
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Digo asneiras. Sei lá por que o tenho. Possivelmente faz parte da casa, como eu e o ar.
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Quando se tem a perfeição, deseja-se a imperfeição. A fealdade…
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Não. Não é a fealdade. Imperfeição e fealdade não são sinónimos. Grego é perfeito na medida que pode alguém.
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A fealdade é Greco.
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A fealdade é uma tristeza de ordem diferente da tristeza. A feiura talvez possa ser divina, não o horrível. O Diabo é infame, mas recebe a caridade, não Greco. Não o homem, nem a sua cabeça mortificada, mas aquelas coisas. Greco não é indecoroso nem vil nem malfeito. É medonho.
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Será?
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Nada há que não me desminta. Nada de que não me arrependa. Nada que não contrarie. Não há nada que não adie. Sou um fantoche de nãos. Escravo do tempo.
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Quantas horas terá esta noite? Deus queira que ninguém acorde, espero estar só.
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Não sei se tenho destino ou fado.
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Oiço uma voz, do universo ou oiço-me autoritário e julgo ser o universo.
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O que é?
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É onde a luz mundana não chega, o céu é puro e se descoberto de nuvens há noite magnífica.
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Não é, aí é donde se vê e para onde se olha.
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O universo é até ali ou dali para diante?
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Penso no céu e se a voz que oiço… é complicado. Está frio, preciso de um gato.
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O preto e branco é mais difícil a cores. Esse é o drama do escarlate.
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O que quererei dizer com isto?
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Preciso da cama e dum gato. Que não tenham ido fazer o que fazem os gatos à noite, quando não nos aquecem.
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Às vezes perco-me nesta casa, basta-me pensar ou pensar que penso ou que a dor é uma coisa concreta. Nunca vi a dor. Como nunca vi Deus.
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Antes que seja manhã.

domingo, maio 14, 2017

Havia a fronteira

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Sabia-se que se estava em Espanha quando cheirava a Ducados. Não fosse artifício de vento, um café clareava, acre e esturricado, a dúvida, pingado com leite.

sábado, maio 13, 2017

sexta-feira, maio 12, 2017

A água seria água se não fosse a luz

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Sabes o que acontece na natureza quando se faz luz? A luz da carne a latejar, fazendo ir e regressar a água do prazer, e a água que abre o caminho para a luz.
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Estou nesta conversa surda porque, se aqui estivesses, não para me ouvires, mas para seres comigo, um dilúvio nos afogaria no tempo parado e no final ser cedo e tarde para nos devermos.

quinta-feira, maio 11, 2017

Branco

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A melancolia branca não é menos escura. Saboreia-se quando ficam os ausentes.
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No jardim de Inverno, com portadas abertas para o vento, às quatro da tarde, o chá das cinco. O alto relógio-de-pesos, especado na sala próxima, tocou um minuto adiantado. O mais pequeno e rústico, o daquele lugar, ditou o momento, outrora de conversa.
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A mesa coberta por uma toalha de linho de primeira com suaves relevos, guardanapos da mesma família, que bordados a ouro desenham o monograma da pessoa triste; conjunto da Companhia das Índias, bule, chávenas, pires, açucareiro e jarrinho para o leite e colheres de prata com o seu cheiro; jarro alto com água, tapado com naperon rendado, com as mesmas letras, para que não haja além de escassas bolhas de ar, e copos de cristal, riscados com metal de riqueza; bolachas sortidas, brioches, aquela espécie de bolo que os ingleses comem com manteiga ou doce, e compotas e a gordura branca que alguns dizem combinar com o paladar do chá preto; e um solitário com flor.
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Às quatro horas e um minuto serviu-se primeiro, como ordena a gentileza do chá, e sorrindo perguntou aos ausentes e fez sinal para lhe passarem o açúcar.
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A folhagem das árvores do jardim não tapava a luz solar. Os odores da vegetação, de fora e de dentro, sem se confundirem na infusão de camélia chinesa, e o cantar dos passarinhos estavam invisíveis. O tiquetaque foi a sua companhia, seguindo a conversa mudo e solene como o mordomo.
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Uma casa cheia às vezes é vazia. Não vem ninguém, se não é a data, como se as pessoas obedecessem às estações da natureza, que ordenam os bandos e os amores donde nascem as vidas.
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Todavia eram quatro da tarde, mais um minuto, mais meia hora e às cinco fechou-se o encontro. Veio quem tinha de vir, sinalizando para que se arrecadasse o espólio.
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Fecharam-se as portadas para o jardim e libertaram-se as cortinas da fronteira da casa de chão de pedra e da sala de soalho encerado.
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Entardecendo, chegariam – pensou. Ao jantar e à ceia servem-se vinhos.
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Se a solidão viria, sabia ela do seu tempo e vontade – disso tinha a certeza. Indiferente, pois ainda não saíra para poder regressar.

quarta-feira, maio 10, 2017

Questões alquímicas

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Só na biblioteca das janelas grandes, com as portas trancadas e o pêndulo imparável do relógio-de-pesos, pensou na utilidade da alquimia.
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A poesia e o segredo não satisfazem, por isso para as pausas para enganar o tédio e o sono se inventou a ocultação sábia dos mistérios. Agradável e familiar, o bálsamo do cheiro da cera desce ali ao palato, uma fome de pensar que só a cogitação sacia.
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Qual a utilidade da alquimia?
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Do metal ordinário fazer ouro é compreensível, é sonho dos pobres e não sacia os infelizes dos gananciosos. Aos primeiros devemos oração e aos segundos muitas mais.
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O elixir-da-eternidade, se não matar antes – e a morte nem existe – pelo corpo do mercúrio, é um sal que não tem água para o levar. Para quererá alguém mais dias se os pode ter livre despido do corpo.
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Resta a procura pela criação da vida a partir de alguma coisa sem espírito. Se um espermatozóide e um óvulo resolvem, o homúnculo é atracção de extravagância abominável.
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Veio o meio-dia e fome antecipada ao hábito. Desfechou com as chaves e sentou-se com as pernas esticadas e os pés num banquinho de veludo bordado e muito gasto, podia alguém o chamar para a mesa.
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Lembrou-se com alegria sonolenta do privilégio de não ter tempo nem pouquidade do ouro, de saber da eternidade e não lhe vibrar o desejo de deixar o seu sangue em herança natural.
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O Sol que se assomou à janela fechou-lhe os olhos sem o adormecer, deixou-se a sonhar com faisão e vinho erudito pelo tempo. Chegou-lhe ao colo um gato.

Murmúrio

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Disse-me da Síria e falei-lhe da Andaluzia. Contei-lhe de Arnulfo de Metz, como todos, neto da Eva africana, de quem recebi sangue.
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Disse-me:
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– Tem os olhos verdes.
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Os meus olhos, às vezes, da cor do mel ficaram verdes, porque às vezes são verdes. Quando uma coisa é, sempre ou ocorrendo, é-o.
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Disse-lhe de história e do ácido desoxirribonucleico como se a tentasse prender nessas espirais.
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Não sei se o silêncio pertence à vitória ou à derrota. Esperei por nada acontecer e não aconteceu.
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Pensei:
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– Como pode a inintimidade presenciar a revelação dos meus olhos verdes?
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Acompanhei-a e abri-lhe a porta do Adenauer. Baixou o vidro sorrindo e subiu-o, começou a chover. Há instantes em que o tempo-local é subitamente a preto e branco e fica.
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Ouvendo o Mercedes deixando-me, fiquei vertical, com os braços pendentes e paralelos, ensimesmado porque me viu os olhos verdes. Nem todos os enigmas têm chave e janela.
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É mais fácil desenhar a linha do que a encontrar. A Terra é redonda, nunca se acaba um caminho.
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Olhando a noite, num lugar em silêncio luminoso, aspirei um lume:
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– Qual é a cor do céu nocturno?
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Negro ou azul, não compreendo uma fotografia. É um tempo, vinco na memória.
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– Como se pára o que está parado?
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Sem me conhecer falou-me do verde e não tive coragem de lhe dizer que era segredo nem da minha cabeça acelerada nem do passado onde ficou alguém sabendo da confidência.
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O tempo e o horizonte diluem e esgotam, a fala tem a sua sentença. Uma ocorrência sem retrato é um rumor. Aos boatos se contrapõe a surdez e o repouso.
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Quem não mos viu verdes deixe falar, diga que é alvoroço e acredite se desejar. Não espere graça, as revelações não têm datas adiantadas.
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Estátua à chuva por tempo, regressei como se voltasse da espaçonave para onde fui levado seduzido – mas sem memória – quando a luz dos faróis comprovaram a noite e o fim.

terça-feira, maio 09, 2017

Falavam

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Estavam oito catataus renhaunhando certezas de preguiça, diante duma pergunta, de tempo e ócio, devorando sem saborear, como se sorvendo. Estava outro catatau a ouvi-los e cheio de sapiência os calou com qualquer coisa de certo e errado. E outro ficou sabiamente calado.
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– É nostalgia.
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– É angústia.
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– É claustrofobia.
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– É perda.
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– Saudade.
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– É melancolia.
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– É Desesperança.
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– É uma coisa qualquer.
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– É arte. A arte não é para ser bonita nem feia nem combinar com alguma coisa nem confortar nem agredir nem  provocar nem conciliar. A arte é para pensar. Depois disso, qualquer coisa, incluindo e pondo à parte.

segunda-feira, maio 08, 2017

As perguntas que nos nascem

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O horizonte era ainda azul e conversavam na leveza do assunto do tempo meteorológico. Saíram da casa instintivamente, sabe-se lá porquê, no caminho do jardim formal. Não há jardim de buchos como esse, nem em França nem em tamanho e complicação do labirinto.
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Os dois olhando para o chão por segundos-minutos, curvando-se perante o Sol e ousando desobedecer ao firmarem os olhos na linha do fim da vista, com as mãos atrás das costas e apertadas.
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Perguntou o príncipe:
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– É possível existir luz sem vida e vida sem luz?
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Antes que respondesse, como se arrumando o assunto, disse:
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 – Há tantas vidas sem luz. Diria que Deus não permitiria a luz sem vida, não faz sentido.
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– Talvez não lhe faça sentido, mas o que pensará um agnóstico ou um ateu?
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– Repare, quando penso em Deus, provavelmente pensaremos os crentes, digo sempre luz. Repare o que são as trevas, não estou a dizer que existam, refiro-me ao que diz quem acredita, a maioria.
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– Ponha-se noutra posição… o que dirá um ateu ou agnóstico ou céptico?
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– Dirá da luz do conhecimento, da luz do intelecto, da luz da inteligência.
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– Metáforas.
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– Quando perguntei não respondi. Depois fiz uma consideração, pessoal como devem ser estas manifestações.
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Poderá a luz ou a luz de Deus ou a luz do crer vir da iluminação divina não ser uma metáfora?
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– Tudo pode ser tudo, então. É uma discussão um pouco vazia, não acha?
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– Será, seja. O que pensam os homens? O que temos pensado? Será vazia, mas só o saberemos se perguntarmos, ainda não encontrando a solução ou uma lógica.
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– Quem somos, donde viemos, para onde vamos, como viemos, como vamos… é debate vago e inconclusivo, e velho. Muito velho. As mais velhas.
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– É a base de muito do que pensamos e acreditamos. Não direi as primeiras perguntas, antes houve a sobrevivência, o fogo, a roda, sei lá, tanta coisa.
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São, de facto, perguntas antigas, mas não respondidas. Sejam inconclusivas, mas não inúteis.
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– Respondeu quando fez a consideração inicial.
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– Foi uma consideração, como tal é pessoal.
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– Crê?
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– Não sei. Sei, mas não sei se creio.
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– Quer crer…
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– Não, não é isso. Não sei se o meu crer é verdadeiramente crer. Não sinto, mas acredito. Penso e concluo da existência. Depois pergunto-me o que será Deus, não quem é Deus nem se o meu Deus é o Deus, no sentido de como o penso e concebo.
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– Sentir Deus é obrigatório? Pensar no que será Deus não é crer, parece-me óbvio.
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– Será óbvio para si e invejo-lhe a certeza…
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– Ora, não entre por aí.
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– Não estou a ser sarcástico.
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Se não pensar no que será Deus irei acreditar nele? Pode ser que sim, não ou talvez, em tempo passado, presente ou futuro.
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Sabe, acredito em Deus, porque tem de haver Deus, uma explicação…
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– Explicação antiga que não resolveu realmente nada. Não entro pela questão das religiões nem dos sacerdócios nem da índole dos homens – somos todos feitos do mesmo barro, se aprecia a expressão. Não vejo o que possa ter Deus resolvido.
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– Essa expressão é-me indiferente, mas serve.
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Não, não resolveu nada. Esquecendo o que me disse, concordo consigo, acerca das religiões, sacerdócios e índoles, nada respondeu a essas questões, básicas e que seriam inúteis se não tivessem gerado tanto pensamento.
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– A ciência, meu caro, a ciência.
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– A ciência? Não vejo em que possa a ciência ter respondido a essas questões – antigas e inúteis, como as classificou.
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– Ora, a ciência desmascarou Deus e a crendice.
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– Esqueça a crendice e as apreciações de carácter. Fica-lhe muito mal condenar o que os outros acreditam, pensam ou sentem. A crendice é, tal como as religiões, sacerdócios e índole, uma parcela a deixar de parte do que aqui realmente importa.
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– Não queria ofendê-lo, mas está a ser impertinente.
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– O que quiser. E eu pensarei o que entender a esse respeito.
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– Muito bem! A ciência desmascarou Deus ou, se preferir, tornou-o obsoleto.
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– O Deus Ciência não respondeu às questões primordiais, ou as quase do ovo.
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A ciência desmentiu religiões, preceitos, atavismos, dogmas, sacerdotes, enfim, todas essas coisas que penso partilharmos a opinião.
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A ciência não provou a inexistência de Deus. Nem a sua existência. Poder-se-á dizer que as regras universais foram criadas por Deus e que nos limitamos a descobri-las, para nosso proveito.
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– Os crimes cometidos em nome desse Deus ou Deuses.
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– Lá está o senhor com considerações desnecessárias e que pensava estarem, por ambos, esclarecidas e ultrapassadas.
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Pensou nos crimes cometidos pela ciência?
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– A ciência não comete crimes! Quem os comete são os homens, que dela inventam tecnologia.
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– Sacerdotes do Deus Ciência. Mas essa não é a questão. Vai dar ao desnecessário e mundano.
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– Portanto, o senhor admite Deus e recusa a ciência.
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– Não admito nada nem recuso nada. Questionei, lembra-se?
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Recapitulando, a ciência não provou Deus, não o conseguiu. Como não conseguiu provar a sua inexistência. Nem a ciência nem a filosofia nem verdadeiramente a crença racional, note que escolhi a palavra, respondeu às tais questões quase primordiais.
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– Muito bem. Não concordo consigo… possivelmente até em parte. Não creio que essas questões tenham resposta, por isso inúteis, insisto, nem que venhamos a coincidir numa conclusão. É hipótese e convergimos nas nossas exclusões.
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Diga-me, então o que é essa crença e não crença, a sua dúvida.
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– Na verdade creio e isso atormenta-me, porque não responde a nada, embora encontre a lógica – artigo singular. Por outro lado, não o sinto. Não sei se é possível acreditar em Deus sem o sentir, inversamente não se tem de o pensar, refiro-me à provável grande maioria dos crentes.
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– Como assim? Não entendo.
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– Fé fria. Quando se fala em Deus fala-se de conforto, ninguém está feliz com frio nem com fome.
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Embora possa divergir completamente de mim, o que quero dizer é que acredito em Deus pela lógica de explicação da vida e do universo. Não acredito em milagres, isso não faz sentido. Pelo que lhe disse antes, tudo tem uma explicação e não nego a ciência – pelo contrário. Aliás, saliento que trata de desvendar a ordenação de Deus.
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O que me confunde é a aridez, acho-me frio. Logo eu, tão emocional, muitas vezes excessivo e impulsivo, de tão grandes paixões e desgostos.
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– Oiço-o e entendo-o sem o entender. Compreendo um drama, mas está sobre algo que não concebo e talvez tenha dificuldade em aceitar.
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– Sabe, chorei muito. Na verdade choro muito, na maior parte das vezes sem lágrimas. A frieza do negrum é um fogo, que não consola, só queima. Não sei como o apagar, com tanto passado e uma cegueira perante o que virá, desesperança, melancolia e angústia.
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– Não tenho…
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– Quando olha o céu, o nocturno que pela natureza escura e pontilhada pelas estrelas e silêncio que nos recolhe, o que vê? Somos grandes? Somos pequenos? O que é aquilo? Um pano pesado traçado dos bichos, cenário, vazio, plenitude…
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– O que veremos todos e o que sentiremos todos. Pequenos, contemplativos… talvez todos nos sintamos inseguros.
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– Não bastando as tais perguntas quase primordiais e universais, junto-lhe o caos. Não será o caos a ordem que rege e une universo? O universo nasceu do quê, onde e por que razão? O que havia antes? Que dimensão? Para onde se expande e novamente por quê?
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O que levou Deus a criá-lo ou o que quer que seja? Vê como a ciência não tem respostas.
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– A ciência admite multiversos…
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– Ah! Ah! Ah! Como se não bastasse a confusão em que nos mergulhámos… sim, isso. O que, aliás, vai dar ao mesmo.
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O caos é caos ou é a ordem ou o seu motor?
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– …
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– Veja o pardal e a pardoca… não deixo de ver com um sorriso a propagação das espécies… olhe, juntemos-lhe o dever do sexo e, já agora, o prazer. Nem sei se todas as criaturas têm prazer no sexo.
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– Não imagino uma planta com orgasmos.
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– Contudo tudo o que tem vida se reproduz. Porquê?
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– …
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– Não diga, apreciemos a luz e a sombra do entardecer.
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– A luz…
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– Sim, a luz…